Eric Arakawa é um dos shapers mais influentes da história moderna do surf. Com mais de cinco décadas de experiência no Havai, construiu pranchas para atletas como Andy Irons, Michael Ho, Derek Ho e Jack Robinson. Em 2025, inicia oficialmente a sua operação europeia através da fábrica portuguesa Blue Room, criando uma nova ponte entre o design havaiano de alta performance, a produção industrial europeia e uma filosofia de sustentabilidade baseada na durabilidade.
Formação de Eric Arakawa como Shaper no Havai
Primeiras Pranchas e Processo de Aprendizagem
Influência de Harold Iggy e Gene Cambe
Filosofia de Shape e Feedback Honesto
”O artesanato é uma questão de integridade, não de atalhos.

© Pedro Góis
Como Eric Arakawa Avalia a Performance de uma Prancha
Quanto nos surfistas médios, intermediários, também há imenso a observar — é esse o trabalho do shaper. Tens de identificar se o problema é do design ou da mecânica do surfista. Às vezes a mecânica corporal não aplica força da maneira correta, por isso parece que a prancha não funciona, mesmo que o seu shape esteja bem feito. É uma questão de técnica do surfista e o olhar do shaper tem de perceber em que medida cada fator contribui.
Relação entre Surfista, Mecânica Corporal e Design
Avaliação de Performance no Surf Moderno
À parte preferências pessoais, qualquer avanço de performance deve ser integrado na avaliação do que é bom surf. No fim do dia ou ao fim de uma longa época, as pessoas comparam o que é corriqueiro com o que é excecional — o excecional tem de ser mais recompensado. Há tipos de aéreos que já não pontuam tanto como antes. Lembras-te daquele evento em Nova Iorque onde o Kelly fez um aéreo e lhe deram um 10 só por uma manobra? Hoje isso não acontece. Mais uma vez: o que se torna corriqueiro perde brilho; o excecional sobressai. E isso não é estático — muda.
CNC, IA e Sensores no Design de Pranchas
A tecnologia IA sendo honesto, assusta-me um bocado porque passamos para outro nível. No design de pranchas, não sei… Outra vez: é informação, mas podem haver abusos, muita pirataria, gente sem integridade a operar. O impacto que terá em indústrias como a arte, música, arquitetura, cinema, advocacia… é incrível. Tudo o que posso fazer, enquanto líder da marca e da empresa, é preservar o elemento humano junto aos nossos clientes. As relações são muito importantes. A IA pode imitar um humano, mas nunca será humana. Entregar essa ligação humana e conectar-nos relacionalmente — é por isso que faço o que faço. É um meio para um fim imediato. Deixando as questões filosóficas de lado, será, no mínimo, interessante ver os dados que uma prancha cheia de sensores pode gerar sobre a força que um surfista aplica, como movimenta a prancha e que pressões exerce. Há certamente conhecimento a recolher daí. Vejo-a como outra ferramenta. Se a tiver, usá-la-ei para entregar melhores pranchas aos meus clientes.
”A tecnologia é uma ferramenta, mas a ligação humana é insubstituível.

© Pedro Góis
Michael Ho e o Feedback de Alta Pressão
Andy Irons e a Intuição em Competição
Jack Robinson e o Design de Volume Escondido
Isso acontece muito no surf e noutros desportos: os melhores usam determinada estratégia ou equipamento e os outros seguem-nos para não perderem ritmo. Há muita gente a olhar por cima do ombro para ver o que os outros fazem, e outros a olhar para a frente para observar as tendências. Na altura em que fazia pranchas para o Michael e o Derek Ho havia mais pensamento independente, mais individualismo. Hoje há mentalidade de manada — mas sinto que estamos prestes a ver surfistas a romperem com isso. Exige coragem porque há risco, mas também há grande potencial de recompensa.
Quando entra o dinheiro em jogo e as redes sociais amplificam a perceção de sucesso, a tentação é jogar pelo seguro em vez de arriscar. Nos anos 90 houve a moda das pranchas a encolher demais, a ficar finas, curvadas, estreitas — e isso depois foi corrigido alguns anos mais tarde.
Outra questão é que existem marcas… não sei até que ponto devo desenvolver esta ideia, mas não é fácil fazer uma prancha longa virar. Com a nossa experiência no Havai e a conceber modelos para o North Shore, somos frequentemente obrigados a surfar pranchas mais longas, por isso sabemos fazê-las virar. Existe um ponto de retorno decrescente: se for demasiado longa, sacrificas performance e a pureza das curvas. Mas existe forma de fazer a prancha virar, aplicar power, colocá-la no rail, e perceber o que significa pôr uma prancha no rail e fazer um power turn. Isso nunca envelhece. Prefiro ver essa habilidade e agilidade aplicadas a uma curva potente do que ver apenas um aéreo ou uma rotação — aquilo não desaparece do surf, nunca envelhece.
À parte preferências pessoais, qualquer avanço de performance deve ser integrado na avaliação do que é bom surf. No fim do dia ou ao fim de uma longa época, as pessoas comparam o que é corriqueiro com o que é excecional — o excecional tem de ser mais recompensado. Há tipos de aéreos que já não pontuam tanto como antes. Lembras-te daquele evento em Nova Iorque onde o Kelly fez um aéreo e lhe deram um 10 só por uma manobra? Hoje isso não acontece. Mais uma vez: o que se torna corriqueiro perde brilho; o excecional sobressai. E isso não é estático — muda.
”O que um shaper precisa é de feedback honesto, não de palmadinhas nas costas.

Sustentabilidade no Surf: Durabilidade vs Greenwashing
Não quero ser mal interpretado: sou a favor de cuidar do ambiente. Com a tecnologia disponível, sabes qual é a prancha mais amiga do ambiente? A que mais dura. Se fizeres a prancha para durar, ela não vai parar no aterro ao fim de pouco tempo. E é aqui que muitas soluções ambientais falham: por vezes, para criar uma prancha mais duradoura tens de recorrer a materiais menos “eco-sexy”.
Economia Circular na Produção de Pranchas
”A prancha mais amiga do ambiente é aquela que mais dura.

© Pedro Góis
Por que Portugal foi o País Escolhido
O Papel da Blue Room na Arakawa Europe
Cultura, Espiritualidade e Relação com o Cliente
O que o Romeu queria dizer ao falar do “peso cultural” e da “profundidade espiritual” da Arakawa?
Eric Arakawa: Para mim, fazer pranchas é um meio, não um fim. Vejo o surf como um dom divino — pode ser usado de forma egoísta ou negativa, mas também pode ser usado de forma positiva. Vejo o surf como um modo de ligar pessoas. Transcende línguas, barreiras culturais, religiosas e socioeconómicas. Vejo-o como um conector de pessoas. O meu negócio e a nossa equipa procuram usar esse dom para agradecer, para espalhar a mensagem do surf — mas também as boas-novas do Evangelho. Sou cristão. Antes perguntaste-me sobre as minhas influências: a minha vida não é influenciada por ninguém senão por Jesus Cristo. Aprendi que há muito mais na vida do que apanhar tubos e construir um negócio de sucesso. Alguém me disse uma vez que a importância dos guias espirituais é mostrar-te um caminho para explorares o máximo do teu potencial.
”Construir pranchas é um meio para se chegar a um fim.

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Surf como Expressão Espiritual
Corpo, Alma e Espírito no Desporto
Eric Arakawa: Há 20 anos eu teria provavelmente dito que satisfazia a necessidade de sustentar a família. Hoje, como disse antes, trata muitas necessidades — da pessoa inteira. O shaping ajuda-me a conectar com pessoas; aí está a recompensa. Tenho amigos em toda a parte. Isso não teria acontecido se tivesse ido para a universidade tirar engenharia — que teria sido bom, não desvalorizo — mas talvez tivesse fixado residência num sítio e nunca saído de lá. Valorizo ter amigos em tantos países: tenho imensas portas onde bater à a perguntar se há uma cama a mais. Mesmo sem falar fluentemente a língua ou tendo crenças diferentes, reunimo-nos em torno desta paixão comum pelo surf — e acho isso lindo.
O Risco como Parte da Criação
Sei que é uma pergunta vasta que toca imensas áreas, mas tens uma visão para o futuro do surf?
Eric Arakawa: Acho que precisamos é de encontrar o nosso lugar no futuro. Faço isto porque amo surfar. Se puder continuar a surfar, estarei bem. O meu pico local vai ter mais gente? Provavelmente — e aceito isso até certo ponto. Se não perdermos a alegria do surf, estaremos bem. Quando a alegria desaparecer e começarmos a ver o copo meio vazio em vez de meio cheio, talvez seja tempo de fazer outra coisa. Não controlo o crescimento do surf; apenas preparo-me para o que aí vier.

© Pedro Góis

















